quarta-feira, 6 de maio de 2020

quero falar de mim, do meu governo, do meu desgoverno,
da minha dificuldade de me relacionar comigo mesmo,
com a minha casa interna, vezes clara, vezes nebulosa,
nebulosa que nesse agora se contorce, ela é angustia,
é frio, inverno estranho, sinto frio, frio humano, animal,
eu sou um animal, um animal poético em ebulição,
uma espécie de vulcão em extinção, em descongelamento,
no reino dos homens, no reino dos espíritos,
eu sou um espírito movendo-se em direção aos vultos,
aos reflexos, ao epicentro do sol, do novo sol, do velho,
do passado, do presente sol, desfeito de mitos,
abarrotado de mitos, de metas, de projetos...
sim, eu tenho projetos bem elaborados, nada elaborados,
intuitivos, em minucias estudados
e a música é a minha casa, e as letras são os palácios
que monto com os tijolos, com os palitos,
com o lápis de grafite, de diamante,
de dedos rabiscadores de canções,
é, eu faço, construo canções com a pele,
com o zelo de quem copia das sombras seus contornos
para detectar na parede uma espécie de cinema,
a origem do cinema, do cinema feiticeiro,
do cinema adulterado pela mente
que se une a mente contida
em todas as coisas que toco,
que tocas
a vida de um urso,
eu vivendo num urso, numa caverna,
num dos cantos desse estúdio iluminado
pelos olhos dos que pensam em cavernas,
pelos olhos dos que pensam no invisível,
eu sou invisível, me enxergam os que fecham os olhos
e apontam suas hemácias para o alto,
para o centro do que se derrete
( edu planchêz )

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

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